O eu, à noite, outro.

Noite é uma exposição que tem a intenção de falar do escuro absoluto como experiência artística. Este trabalho é sobre a experiência física da falta de referência”, diz Ana Paula Albé.

A total escuridão, apenas o corpo inteiro pode vivenciar, a visão não dá conta. A máquina fotográfica – assim como o olho – só é capaz de captar a luz. A ausência total de claridade nos coloca em contato com a imensidão que nos rodeia e que mal podemos vislumbrar, mesmo em pensamento. O breu do céu – ainda que ofuscado pelo sol – é composto de matéria e energia, ambas escuras (isso, nas teorias atuais, pois os físicos tateiam na escuridão tanto quanto os artistas).

Como depreender algo a partir da imprecisão? Nos resta fabular. O que, para a maioria, pode, eventualmente, ser agônico, é a realidade do artista. “O processo apresentado aqui reflete sobre a origem da imagem, sobre o quanto dela é descritiva e limitada ao olhar no mundo e quanto dela tem origem na imaginação, na experiência particular de cada um”, fala Albé.

Em Noite, a imagem é o indício de uma experiência – a da artista – que proporciona outra – a do espectador/fruidor/interlocutor/participante. Os poucos corpos que aparecem nas imagens da exposição são penumbras, informes; os lugares, por sua vez, são indefinidos.

Noite nos transporta para um vazio assemelhado ao que Ana vivenciou no interior profundo da Índia à noite. Uma inexistência que não pretende – nem pode – conformar, tampouco confortar. Ampla, assustadora, faz-nos sentir indefesos. A escuridão desmonta certezas e limites, destende a pele, expande o corpo para além de seu contorno. Noite é mais do que aquele período entre o pôr do sol e o amanhecer.

A experiência do corpo no escuro é a de entrar em contato com o outro (que nos habita), resvalar o desconhecido, o inapreensível.

André Sheik, dezembro de 2016.