Rio das Ruas: a cidade como a casa

Rio de Janeiro, 2002

Em 2002 eu mudava do Rio de Janeiro. Pela primeira vez eu me mudava de cidade. Comecei a produzir imagens da minha cidade em busca de uma memória particular, para me identificar e reconhecer nela, o que eu sou.

Queria me buscar além da imagem da “cidade maravilhosa”, aprofundar, atravessar, mergulhar e me apropriar dela como memória.

Decidi buscar imagens que trouxessem memórias do Rio. A cidade que eu buscava era a expansão da casa. E essa casa era a expansão do corpo, a fonte de memórias para além da visualidade coletiva.

Eu buscava memórias de quem vive a cidade como casa, como abrigo.

Decidi por desenvolver o projeto junto às mulheres moradoras de rua do centro da cidade do Rio de Janeiro.

Eu me encontrava com as mulheres às segundas feiras, na Catedral do Rio, centro da cidade.

As 7h da manhã num portão lateral da Catedral, a ONG Banco da Providência distribuía pão francês e café com leite para todos que se apresentassem e se cadastrassem na ONG … Eram mais de 70 homens e 4 ou 5 mulheres.

Muitos eram moradores de rua por decisão própria mas havia os que tinham perdido o emprego, chegado na cidade sem um tostão, batido a cabeça e perdido a memória, sido expulso da favela … cada um tinha um motivo para buscar a invisibilidade mesmo que temporária na cidade.

Me aproximei e convidei as cinco mulheres presentes para participar do projeto.

Eu entreguei câmeras descartáveis FujiFilm 800ISO e pedi que cada uma fotografasse que o que a fazia se sentir em casa nas ruas da cidade.

A retribuição pela colaboração não podia ser em dinheiro (sugestão da ONG) então eu propus, além das cópias de todas as imagens fotografadas, que me pedissem algo que lhes estivesse fazendo falta ali.

Enquanto elas investigavam suas memórias na cidade, eu ia atrás do que lhes faltava.

mulher 1

Seus pedidos foram que eu achasse um lugar e uma escola para o seu filho, fora da favela que ela era proibida de voltar, que eu trocasse a sopa de batata distribuída nas ruas durante a noite pela de caldo de peixe e que eu lhe desse xampu e condicionador para cabelos especiais para seu tipo de cabelo.

mulher 2

Seus pedidos foram roupas no tamanho 34 e uma outra câmera descartável para o dia que ela celebrasse o seu aniversário.

mulher 3

Seus pedidos eram roupas para que ela pudesse lavar e passar para mim.

mulher 4

Ela não quis fazer nenhum pedido.

mulher 5

Pediu que eu lhe desse o que eu achava que ela merecia pelo trabalho que iria fazer para mim.

Combinamos de nos encontrar uma semana depois, na segunda feira seguinte, as 7am na distribuição de café da manhã.


Sobre as fotos

mulher 1

“Essas fotografias mostram momentos diferentes da minha vida.  Esse prédio na fotografia mostra o primeiro lugar em que eu morei no Rio de Janeiro, quando vim do interior. Minha mãe trabalhava para a família que morava ali. Nós moramos ali por dois anos, essa era a minha janela. Esse foi meu momento Cinderela … essa foto com os vasos na rua me lembram da melhor época da minha vida. Minha avó costumava cozinhar para mim em panelas de cerâmica … essa foto com bolas brancas nas árvores já fala da minha vida na rua. É de um movimento do pessoal da capoeira, e na rua você tem de ter um grupo, amigos que te defendam … a última foto é o meu rosto com a minha pasta do movimento sindicalista; eu fui na loja de fotografia perguntar ao vendedor se essa câmera funciona mesmo ou se você estava de brincadeira comigo”

mulher 2

Minha casa é em qualquer lugar, não importa onde estou desde que eu esteja com meu homem. Nós estamos sempre juntos. Nós gostamos de viajar para outras cidades, pode ser de ônibus, pode ser a pé. Como ir e onde ficar não é um problema. Nós estamos aqui agora mas podemos estar em qualquer lugar, desde que vamos juntos.

mulher 3

Ela não retornou ao segundo encontro

mulher 4

Apareceu ao segundo encontro sem a câmera, tinha sido roubada

mulher 5

Foi ao segundo encontro mas não fez fotografias porque teve medo de fazer errado, estava desistindo do projeto. Devolveu a câmera descartável ainda empacotada, exatamente como recebeu.

Fotos da mulher 1

“Mandala”

Fotos da mulher 2

“Magrinha”