Terra distante

José Sousa Machado
Abril 2009

Ana Paula Albé expõe em Portugal pela primeira vez duas séries de trabalhos fotográficos recentes que remetem directamente para o universo da paisagem.

Fotografando tacos de madeira, rodapés parcialmente destruídos e pedaços de parede rachada, a artista entretece relações de correspondência – à maneira dos trompe l’oeil – entre os seus ínf(t)imos destroços quotidianos e paisagens naturais. Noutros casos, simula a rememoração ou reconstrução emocional de paisagens que o tempo varreu do seu olhar vivente, remetendo-as para o tempo forte e utópico das origens, que T. S. Eliot designou de “Waste Land” e a poetisa italiana Alda Merini (de quem retirei o título deste texto) chamou “A Terra Santa” – “lugar novo/ que quando convém/te envia o seu raio nu/para dentro da cela muda.”

Linhas de água, horizontes recortados, superfícies aquáticas em repouso ou agitadas, composições de matriz simbolista, privilegiando os aspectos plásticos da imagem, trabalhos de extrema depuração formal, nos quais se instaura uma radical abstracção geométrica em formato digital ou infiltrações que abrem nas paredes linhas horizontais – desenhos singelos – foram coligidos pela artista, numa espécie de cartografia exaustiva de como os estragos construtivos podem favorecer a criação. Ou antes, a artista instala aqui uma polaridade constante entre a destruição e a possibilidade de criação ou renovação. À maneira dos apocalipses, para os quais se exige a completa ruína do presente como condição necessário ao ressurgimento de uma nova criação liberta da matéria espúria.

Por outro lado, a exaltação do detalhe e a celebração do pormenor como local de culto por excelência, estabelece um novo nível de correspondências entre o substancial e o desprezível.

Do cotidiano ao sonho em quatro artistas

Luisa Duarte para Galeria Mercedes Viegas

A coletiva FotoEncontro reúne quatro artistas cujas obras fazem uso da fotografia, cada uma delas com o intuito de percorrer um universo de questões próprio. Estamos diante de pequenas amostras de suas investigações, sinalizações de suas poéticas. Trata-se de quatro vetores, cada um apontando para uma direção. Mas se existem aproximações possíveis, podemos pensar que tanto Ana Paula Albé quanto Mika Chermont buscam instaurar um novo olhar diante do cotidiano mais prosaico, viabilizando diferentes maneiras de olhar o que está próximo e passa desapercebido. Enquanto Maria Laet e Claudia Bakker exibem trabalhos nos quais a dimensão do sonho e do mistério está sempre à espreita.

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A obra de Ana Paula Albé deriva de um olhar atento às entrelinhas do cotidiano. Suas fotografias surgem como pequenas paisagens que remetem à natureza, mas são, efetivamente, realizadas no tecido da vida doméstica. A artista registra rodapés em estado de decomposição. Entre a desconstrução e a reconstrução, vemos pequenas ruínas. Focos de obras inacabadas, infiltrações, que aqui assumem o papel de desenhos. Postas uma ao lado da outra, torna-se potente a identificação com paisagens naturais de horizontes e montanhas, quando o que está sendo fotografado são linhas incertas, formadas arbitrariamente em fragmentos de paredes.

A produção destas imagens se deu no contexto de mudança da artista do Rio de Janeiro para São Paulo. De uma cidade à beira-mar, repleta de horizontes e morros, ocorre a deriva para uma cartografia fechada, sem horizonte. É nessa nova casa, que ainda está em processo de construção, é nesse novo lugar, que ainda está por ser reconhecido, é nesse estado de transição que Ana Paula devota atenção para estas paisagens possíveis, domésticas, que se encontram ali, bem próximas, morando de maneira insuspeita aos seus pés. Estamos diante da descoberta de horizontes improváveis, ponto no qual nunca se chega, mas que nos serve de guia diante de territórios ainda desconhecidos.

As fotografias de Mika Chermont, assim como as de Ana Paula, despertam o olhar do público para fragmentos que passam despercebidos no dia a dia, e que quando recortados pelo gesto da artista ganham novos sentidos. Aqui há uma busca por encontrar linhas, geometrias espontâneas, que podem ser descobertas em objetos banais como uma embalagem, e também na arquitetura, buscando ver por novos ângulos uma parede ou um teto. Usando uma câmera automática comum, sem qualquer recurso especial, Mika registra de forma seca e direta estes detalhes.

Texturas, dobras, pequenas frestas, é concentrando o olhar nessas partes, que podem ser achadas em pequenos ou grandes espaços, que a artista finda por revelar abstrações nas quais o referente figurado inicial sai de cena. A fotografia de Mika, ao se desviar do óbvio, instaura a dúvida e o estranhamento em quem a olha, nos incitando a enxergar o mesmo de forma diferente.

As foto-performances de Maria Laet unem silêncio e mistério. Vemos uma mulher dormindo em uma cama no leito de um rio. Coberta por uma gaze, que quase protege, sem encobrir. Deixando entrever a pele, que é coberta por uma segunda, tudo em um ato delicado de recolhimento e proteção. A gaze se mistura à água, ambas translúcidas, surgindo como algo que se interpõem, sem interromper. A gaze segue por entre pedras, indicando uma possível navegação daquela cama-barco.

Os intervalos suaves, o cenário onírico, as entrelinhas que somente sugerem sem dizer por completo, são todas partes de um vocabulário de sussurros que remete ao ritual diário do sono, momento no qual reconstituição e sonho se entrelaçam. Hora em que os pontos da trama voltam a se conectar, para que na vigília possamos desfazê-los, gastá-los, usá-los. Rotina diária de tecer e desfazer os fios. Aqui o ato de dormir é regenerador da trama, que se refaz tão somente ao som do rio e da respiração. A calma que habita estas fotos é a daquela hora em que buscamos proteção e descanso nesses objetos metafísicos chamados cama. Onde nascemos e morremos. A cena misteriosa na qual elas se dão diz respeito ao momento em que o outro de nós mesmos vem à tona, e a cama-barco navega sem nos movermos por entre água, pedras e musgos.

As fotografias de Claudia Bakker se distinguem no contexto desta exposição pela eloqüência visual que lhe é característica. Se nas demais obras o que se vê são paletas mais sóbrias, aqui as cores pulsam, o uso da luz é exercitado de forma ampla e o traço do barroco se faz presente. Traço que é uma marca da trajetória de Claudia, na qual investigações sobre o orgânico, o tempo e linguagem também surgem constantemente.

Na série de fotografias aqui apresentada vemos três portas fechadas, uma ao lado da outra, registradas frontalmente, cada uma iluminada de maneira diversa, com texturas distintas, mas sempre em tons rubros. O título do trabalho, Apontamentos Destino, denota as múltiplas possibilidades contidas nessas portas cerradas, cada uma surgindo como um destino em potencial. Há uma remissão ao ato de escolha, decisão, ritual de passagem em que se deixa para traz algo e se abre caminho para um por vir.

A iluminação quase sombria sugere um mistério implicado em cada possibilidade de travessia, em cada escolha. Se nas influências barrocas o escritor cubano Lezama Lima é uma referência para a artista, em sua pesquisa sobre o uso da luz surge a inspiração no autor japonês Junishiro Tanizaki, e suas investigações acerca das diferenças entre uma iluminação própria do ocidente e outra que concerne ao oriente. Entre estes pólos a obra de Claudia se move, percorrendo, a um só tempo, as trilhas do excesso e da precisão.

1) Essa tomada da casa como espaço poético pode ser vista também, de maneira forte e constante, na obra da artista Brígida Baltar.